A
região da costa brasileira no sul da Bahia,
onde primeiro chegaram os portugueses em 1500, ficou
esquecida na história até a segunda
metade do século 20, quando começou
a receber atenção de jovens, artistas
e intelectuais das grandes cidades devido à
riqueza ecológica da região, beleza
das praias e seu isolamento, sem estradas nem luz
elétrica, com a população nativa
constituída basicamente de pescadores, pequenos
agricultores e indígenas de origem tupi-guarani.
Era o lugar ideal para a reconstrução
da sociedade de acordo com a visão utópica
de comunidades em harmonia com a natureza.
Em meados dos anos 1970 jovens da versão brasileira
dos hippies (movimento contracultural do final dos
anos 1960 nos Estados Unidos) começaram a aparecer
nas praias da vila do Prado, do vizinho Arraial d´Ajuda
(separados pelo rio Buranhém) e da antiga redução
jesuíta de índios conhecida como Trancoso,
espalhando-se depois para Santa Cruz (Cabrália)
ao norte e Alcobaça e Caravelas ao sul .
Nas décadas seguintes, com a chegada de investimentos
imobiliários e turísticos, uma nova
onda de redescoberta ocorreu também na parte
sul da microrregião, tendo como pólos
de atração as praias semidesertas da
região de Alcobaça e de Caravelas, ao
lado do rio Peruípe, e para o ecoturismo os
recifes entre Prado e Mucuri e o famoso arquipélago
de Abrolhos - três ilhotas a 70 km mar adentro,
ideais para mergulho, visitadas no passado por piratas
e naturalistas como Charles Darwin.
A redescoberta no Século 20 atraiu atenção
para a grave questão indígena, apressando
processos de demarcação de terras dos
descendentes dos primeiros habitantes de língua
tupi-guarani, como os índios Pataxós,
agrupados em torno de movimentos de resistência
no Parque Nacional de Monte Pascoal.Criaram-se também
unidades de conservação, como os parques
nacionais do Pau Brasil, do Descobrimento e de Monte
Pascoal. Com o nome derivado da expressão portuguesa
para "abra os olhos", diante do perigo representado
pelas ilhotas em alto mar, o arquipélago de
Abrolhos transformou-se em parque nacional marinho,
com áreas de reserva exclusiva, de pesquisa
e visitação. Recebe fluxo regular de
visitantes a partir dos aeroportos de Caravelas e
Prado, que alimentam as agências de turismo
e operadoras de embarcações que fazem
o trajeto entre o continente, as ilhas e os outros
sítios marinhos de corais e recifes no Oceano
Atlântico - recifes de Timbedas (a leste de
Alcobaça) e Coroa Vermelha (diante de Mucuri)
e parcel das Paredes, o maior deles, em frente a Caravelas.
A última onda de investimentos ainda está
em curso, com a disponibilização de
terras de fazendas para investimentos turísticos,
mas agora a demanda já se divide entre o sul
da Bahia e as praias do Nordeste.
Muitos dos primeiros visitantes, encantados, transformaram-se
em moradores e abriram caminho para a descoberta turística
da região por parte de artistas e gente famosa.
A abertura de nova fronteira para investimentos em
turismo levou o governo a providenciar estradas, asfalto,
eletricidade e telecomunicações, criando
a infra-estrutura necessária para a atração
de grandes investimentos em hotéis, pousadas,
centros de lazer e serviços em geral. Em consequência,
agravaram-se problemas ambientais de ocupação
desordenada de solo (invasões freqüentes
da faixa de marinha, pertencente à União,
ocupações de falésias e encostas,
aterramento de várzeas e destruição
de manguezais etc), falta de tratamento de esgotos,
esgotamento de solos, monocultura de eucalipto e assoreamento
de rios e córregos. No mar, há indícios
de esgotamento de espécies devido à
pesca excessiva.
A utópica ocupação de alternativos
resultou na corrida turística, no boom imobiliário
dos anos 1980-1990, com valorização
das terras dos nativos, e...na globalização
capitalista da Costa do Descobrimento no sul da Bahia,
entre os rios Jequitinhonha ao norte e Mucuri ao sul,
na divisa com o estado do Espírito Santo.