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Inscrições danificadas têm que ser restauradas

Arara retocadaPelo menos 550 gerações de povos pre-históricos viveram e deixaram sua arte na região de Serranópolis, sudoeste de Goiás, próximo a Jataí e ao Parque Nacional das Emas. Alí, com a proteção de maciços rochosos de posição privilegiada, os antepassados viveram com a abundância dos vales de cerrados, dos rios e do clima. Fizeram cultura, expressa principalmente pelos painéis de inscrições - desenharam com óxido de ferro e óleos vegetais centenas de figuras, ao longo de gerações, demonstrando sua arte, seu estilo de vida integrado à natureza selvagem, suas crenças, seu espírito coletivo, sua relação com os animais. Durante 11 mil anos gerações se sucederam na ocupação permanente ou temporária daqueles maciços, próximos às nascentes do fabuloso rio Araguaia.

Até que, no ano de 1999 dC, a atual geração de "proprietários" da fazenda onde se encontra este que é o mais importante sítio arqueológico país, foi levada a aceitar os serviços de uma organização não governamental (ong), de Brasília que - usando recursos de agências multilaterais - acabou sendo responsável pelo pior desastre arqueológico de Goiás, com pesados danos materiais e históricos ao patrimonio da União e da Humanidade. Esta ong foi contratada pela família dos donos da terra onde se situam as inscrições rupestres para fazer o plano de manejo, dar forma à Reserva Particular do Patrimônio Natural, criar o centro de visitantes e cuidar para que as visitas ao sítio arqueológico não danificassem as pinturas rupestre de aves, animais, cenas do cotidiano, símbolos sagrados, de caça e do imaginário dos povos que ali viveram... Mas para minimizar os custos a contratada deixou um funcionário terceirizado, encarregado de construir uma passarela de madeira diante das inscrições das mais importantes da arqueologia brasileira. Era um carpinteiro, levado de Alto Paraiso(GO), para executar o trabalho de construir a passarela de madeira. Quem conta a história é Ivana Braga, a proprietária da RPPN: deixado sem supervisão de arqueólogos no local por semanas, o carpinteiro exercitou sua irresponsabilidade cultural retocando dezenas de inscrições por sua conta... Alí ele queria provar que não era bem um tiú, mas outro animal... acolá ele queria mostrar que o material usado pelos antepassados não era óxido de ferro, mas outro pigmento... mais adiante ele quis demonstrar que tal figura de animal na verdade era outra coisa que só ele via... Em decorrência, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) embargou a obra quando as denúncias surgiram na imprensa de Goiânia (O Popular, por exemplo) em 1999. A questão foi parar na Justiça, por iniciativa do Ministério Público, e acabou num arranjo no qual a conta a ser paga ficou a cargo somente da proprietária da RPPN onde se situam as inscrições rupestres. A Justiça determinou o pagamento de elevada multa - a dona da RPPN Pousada das Araras teve que vender uma casa em Serranópolis para pagar o valor, segundo afirma. O Ministério Público em Goiás, bem como os pesquisadores das universidades, acham que tem recuperação: basta uma ação judicial obrigar os verdadeiros responsáveis, que continua operando com recursos estrangeiros (como Banco Mundial, BID etc), a trazer especialistas europeus e, ao longo de anos, restaurar o que foi estragado pela ignorância e irresponsabilidade.

Veja algumas fotos de inscrições danificadas

 

 

 

 

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